terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Padronização de plugues e tomadas

Padronização de plugues e tomadas é novidade para o brasileiro
04/01/2010 14h38
ANNA FLÁVIA NUNES
anna@otempo.com.br

Quem está à procura de apartamentos e casas e visitou projetos novos ou em construção já reparou que as tomadas mudaram. O novo formato, fundo e sem entrada para pinos chatos, será o padrão brasileiro a partir de 2010. Por isso, é bom se acostumar. A partir de agora, somente existirá um tipo de tomada, sempre com três furos, e dois padrões de plugues, um com dois pinos e outro com três. Além disso, os pinos podem ser de dois diâmetros: 4 mm ou 4.8 mm.



De acordo com o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), os eletrodomésticos que necessitam de aterramento, como acontece com as máquinas de lavar roupa e os aparelhos de ar condicionado, usam os plugues de três pinos. Os que operam com até 10 amperes usam o plugue com pinos de 4 mm, ao passo que os que trabalham entre 10 e 20 amperes usam plugues com 4,8 mm de diâmetro.


A mudança, segundo o diretor da Qualidade do Inmetro, Alfredo Lobo, vai eliminar a incompatibilidade entre plugues e tomadas. "Atualmente existem mais de 10 modelos de plugues e tomadas diferentes no Brasil, o que é uma consequência da falta de padronização. Um cidadão comprava um aparelho com um plugue e precisava de adaptadores para fazer a ligação". A "gambiarra" de plugues e tomadas provoca sobrecarga na instalação elétrica, risco de choques e desperdício de energia, o que levou à publicação, em 2000, de uma portaria sobre a adoção do padrão pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Naquele ano foram definidas as datas para que diferentes seguimentos cumprissem prazos para adaptar-se ao novo modelo de tomadas e plugues.


Segundo o Inmetro, em 1º de janeiro de 2010 as empresas de eletroeletrônicos devem parar de produzir aparelhos com plugues antigos. Os importadores também não poderão trazer produtos sem a especificação para o país. Em outubro, os importadores e fabricantes estarão proibidos de comercializar equipamentos fora dos padrões para o varejo. Já no início de 2011 o varejo não poderá mais comercializar plugues e tomadas avulsas dos modelos antigos e, em julho, a transição deve ser finalizada.



Alfredo Lobo justifica que a segurança foi uma das razões que levaram à adoção do novo padrão. "A tomada antiga possibilitava o contato acidental com a parte energizada e o ajuste imperfeito entre o plugue e a tomada, o que gerava desperdício de energia e calor. Isso provocava o superaquecimento da instalação e do equipamento, podendo levar a um curto-circuito", explica. O diretor da Qualidade do Inmetro ainda lembra que, nos últimos dez anos, mais de 35 mil incêndios ocorreram em São Paulo por conta desse tipo de deficiência, segundo dados levantados pelo Corpo de Bombeiros da cidade. "Mais de seis mil incêndios foram provocados por superaquecimento de equipamentos eletrônicos acoplados à instalação elétrica", alerta. Mesmo sem possuir um levantamento similar ao da corporação paulista, o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais confirma que essas ocorrências são mais comuns do que a população imagina, especialmente na época do Natal, quando árvores e casas são iluminadas com lâmpadas coloridas.


Segundo o Inmetro, a nova tomada não possibilita a chamada inserção parcial, já que o plugue é sextavado e ela também possui uma cavidade sextavada. Assim, a energização do pino só acontece quando o mesmo estiver com a parte plástica totalmente inserida na cavidade. Isso elimina os riscos de choques elétricos, que acontecem principalmente quando as crianças colocam os dedos na tomada. A mudança tranquilizou a empregada doméstica Elza dos Santos Costa, 42, que tem um filho de quatro anos e usa protetor nas tomadas para evitar acidentes. "Sempre ouvi histórias de crianças que tomaram choque e fiquei com medo. Essa novidade vai deixar as mães mais seguras".



A mudança já afetou quem está reformando a  casa ou comprou eletroeletrônicos novos. Para a dona de casa Maria de Lourdes Oliveira, 64 anos, a adaptação ao novo modelo está cada vez mais difícil. A casa dela passa por uma reforma desde julho deste ano e todas as tomadas foram substituídas. "Não consegui ligar nenhum aparelho e tive que comprar seis adaptadores. Fiz de tudo para conseguir uma tomada antiga, mas me falaram que somente a nova é vendida. Não gostei da mudança", reclama.


O funcionário público José Geraldo Caetano, 57, não pretende reformar a casa tão cedo, mas já teve que se adaptar ao novo padrão brasileiro. Uma tomada do banheiro estragou recentemente e o novo modelo foi instalado. Agora, um adaptador é necessário para que a família consiga ligar qualquer aparelho. "Sei que essa mudança vai fazer efeito mesmo daqui a alguns anos, mas aos poucos vamos ter que nos acostumar".


Alguns consumidores ficam surpresos com as novidades, como o aposentado Clever Martins, 55. "Fiquei sabendo da mudança por meio de um amigo e ainda não me acostumei com a ideia de lidar com novas tomadas. Não sei se a adaptação vai ser fácil". O gerente do departamento de tecnologia da Associação Brasileira da Indústria Elétrica Eletrônica (Abinee), Fabián Yaksic, diz que não houve uma divulgação maciça do novo padrão para o consumidor. "É importante que todos sejam informados porque o assunto é discutido no meio empresarial há quase 10 anos e alguns fabricantes já se anteciparam às medidas", lamenta. A aceitação do cliente é a maior dificuldade enfrentada pelo eletricista Wellington Penna, 40, que já foi culpado pela dificuldade de adaptação. "Algumas pessoas acharam que eu tinha escolhido a nova tomada e tive que explicar que as antigas não são mais vendidas. Em um caso específico um senhor me impediu de trocar uma tomada do escritório dele porque ela era incompatível com o plugue do computador", conta o eletricista.



O impacto financeiro gerado pela mudança é a principal preocupação dos consumidores. De acordo com o Inmetro, além de segurança e adaptabilidade, o custo foi um critério fundamental para a escolha desse padrão. Mas afinal, vai sair mais caro para o bolso do brasileiro? O Instituto diz que é natural nesse primeiro momento que os fabricantes repassem o custo para o consumidor, já que eles tiveram que desenvolver novos produtos. Mas o órgão assegura que não há motivo para preocupação porque a própria concorrência se encarregará de nivelar os preços. O gerente do setor de elétrica da loja Leroy Merlin, Alessandro Malta, diz que no início do ano os preços estavam mais salgados. "Houve um repasse para o consumidor, mas agora a diferença entre os preços das tomadas novas para as antigas é quase zero".


Para o gerente da Abinee, Fabián Yaksic, a redução do número de modelos de plugues e tomadas será positiva para o consumidor. "Haverá uma economia de escala para os fabricantes, que poderão comercializar os produtos por preços menores, sem custos para o consumidor final. Eu pessoalmente constatei que algumas tomadas já estão mais baratas", revela. Ele lembra que alguns fabricantes se anteciparam e aderiram às mudanças desde 2007. "Mais de 80% dos aparelhos eletrônicos já estão com os novos plugues, que também podem ser ligados em algumas tomadas antigas, o que evita problemas para o consumidor". O diretor da Qualidade do Inmetro, Alfredo Lobo, lembra que essa compatibilidade também foi pensada antes da implantação da mudança. "O padrão nacional deveria ser compatível com a maior parte das tomadas existentes para facilitar o período de transição, já que alguns países levaram 10 anos ou mais para completar essa fase".


Muitos pensam que um padrão universal facilitaria as coisas, mas, segundo o Inmetro, várias tentativas foram feitas em todo o mundo, inclusive por parte da entidade internacional de normalização do setor, a Comissão Eletrotécnica Internacional - IEC, mas nenhuma foi adiante. A escolha de padrões de outros países chegou a ser cogitada, mas o Inmetro afirma que chegou a um modelo próprio com o objetivo de evitar a dependência tecnológica.


A construção civil já se adaptou à padronização de tomadas e plugues. Desde 26 de julho de 2006, de acordo com a Lei 11.337, todas as novas edificações precisam ter o aterramento da rede elétrica e todos os aparelhos, cujo aterramento seja necessário, devem apresentar o plugue de três pinos. Para Geraldo Jardim Linhares, vice-presidente da área de materiais, tecnologia e meio ambiente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon), esta é a única alteração que afeta o setor. "As obras em andamento no estado já estão alinhadas ao novo padrão, mas muda muito pouco para a construção civil porque a diferença de preço das tomadas antigas para as novas não é significativa".


Geraldo acredita que os consumidores serão beneficiados com a mudança. "Eles foram pegos desprevenidos porque terão que se adaptar aos novos equipamentos, mas há um ganho porque eles estarão aterrados", justifica. Ele garante que em um dia de forte chuva ou mesmo de apagão, como o que ocorreu em novembro deste ano, o aterramento reduz a probabilidade dos aparelhos queimarem.


Apesar disso, o vice-presidente da área de materiais, tecnologia e meio ambiente do Sinduscon afirma que o ganho técnico e econômico é muito pouco e não justifica o tamanho da mudança. "Adotar um modelo único no mundo foi de certa forma um preciosismo".




Adaptadores



Indispensáveis para a adequação dos consumidores ao novo padrão, os adaptadores serão cada vez mais usados. Hotéis e outros estabelecimentos que recebem visitantes internacionais, por exemplo, deverão manter um adaptador sempre disponível.


Segundo o gerente do departamento de tecnologia da Associação Brasileira da Indústria Elétrica Eletrônica (Abinee), Fabián Yaksic, o aumento da procura por adaptadores no período de transição já era esperado. "Por conta disso, o Inmetro exigiu certificação dos adaptadores, o que dará mais segurança ao consumidor". O gerente do setor de elétrica da loja Leroy Merlin, Alessandro Malta, diz que as vendas cresceram, mas que os consumidores ainda não se acostumaram ao novo. "Até maio tínhamos estoque das tomadas antigas e elas eram as preferidas dos clientes. Mas depois eles ficaram sem opção e reclamam muito da nova tomada. Até coloquei um folder explicativo no setor para conscientizá-los".


O diretor da Qualidade do Inmetro reconhece que a população enfrentará dificuldades durante o período de adaptação. "Não teremos tomadas compatíveis com os plugues novos. Preferencialmente deve se evitar o uso do adaptador, optando pela troca da tomada para diminuir os riscos de choque elétrico, curto-circuito e incêndio. Mas sabemos que será inevitável usá-lo e por isso exigimos a certificação". Alfredo Lobo também recomenda fazer o aterramento da instalação. "O benefício não será real se uma tomada com três pinos for usada sem fazer o aterramento. É preciso capacitar os eletricistas para que eles usem as novas tomadas com o aterramento", afirma.


Confira o que muda com a padronização dos plugues e tomadas:




- Acabam os plugues de pinos chatos. Os aparelhos serão fabricados e importados apenas com pinos redondos.


- Os plugues terão dois e três pinos e serão usados de acordo com as características de cada aparelho.


- O terceiro pino funcionará como aterramento para evitar choques e sobrecargas. Locais que não possuem este tipo de instalação deverão providenciá-la, uma vez que as tomadas antigas não serão mais comercializadas.


- Os pinos terão diâmetros diferentes conforme a corrente elétrica necessária para o uso de cada aparelho. Ou seja, terão diâmetros diferentes aparelhos que operam com 10 amperes ou entre 10 a 20. Isso impede que um aparelho de maior amperagem possa ser conectado a instalações de até 10 amperes e sobrecarregue a rede.

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